Segunda Coluna no Jornal de Bairro de JPA
A Física e o cotidiano
A intuição acompanha o ser humano desde os primórdios e sempre
desempenhou papel relevante nos diferentes problemas aos quais fomos
(e ainda somos) submetidos ao longo desses milhares de anos de
evolução. Até hoje, apesar de todos os avanços tecnológicos que nos
diferenciam em muito de nossos antepassados, costumamos reagir de
forma análoga quando temos uma intuição. Algo semelhante ocorre em
nossas vidas quando procuramos padrões de repetição. O tempo todo
estamos comparando algo que já conhecemos com algo novo. Grosso modo,
temos dificuldades em reconhecer algo que nunca vimos. Duas histórias
bem famosas ilustram essas características humanas:
Em junho de 1696, os irmãos Bernoulli enunciaram um famoso problema e
desafiaram os maiores gênios do mundo a demonstrarem qual seria a
trajetória de uma partícula que deveria, no menor tempo possível,
percorrer uma certa distância entre dois pontos fixos, sob ação
somente de um campo gravitacional constante, sem atrito e partindo do
repouso.
A intuição de muitos indicava que esta deveria ser uma reta. Outros
arriscaram parábolas. E o problema ficou no ar por uns 6 meses sem
qualquer solução. Foi quando Sir Isaac Newton soube do desafio,
recebendo o problema transcrito num papel e deixado em sua caixa de
correio por volta das 4 da tarde. Como bom inglês que era, o chá das 5
era inegociável e, reza a lenda, foi somente após a tradicional bebida
inglesa que o (então aposentado) Newton pôs a mão na massa.
O problema que estava aberto há meses, foi resolvido em horas. Por
volta das 4 da manhã, Newton já havia finalizado todas as contas e
demonstrações e no dia seguinte enviou a solução para ser publicada de
forma anônima. Após estudar cuidadosamente a solução proposta, Johann
Bernoulli, um dos autores do desafio, fez questão de agradecer
publicamente a Isaac Newton, publicando: "Tanquam ex engue leonem" ou,
reconhecemos um leão pelas suas garras.
Há alguns anos atrás, o gênio da informática Steve Jobs buscava um
programa que tocasse músicas aleatórias em um de seus novos
dispositivos, o ipod. Quando o programa foi criado pelos funcionários
da Apple, Steve fez questão de testá-lo e se decepcionou ao ver (e
ouvir) que diversas músicas se repetiam dentro de uma mesma lista e
questionou os subordinados sobre o código, uma vez que ele havia
solicitado um gerador de números absolutamente aleatórios e recebera
algo com inúmeras repetições. Como poderia ser? Um técnico confirmou
ter feito um dos melhores geradores de números aleatórios conhecidos e
que o fato de diversos números se repetirem não significaria que estes
não eram aleatórios. Steve Jobs concordou com a explicação e replicou
para que fosse feito, então, o gerador de números o menos aleatório
possível de forma a nenhuma música se repetir!! E eles conseguiram,
claro.
A questão importante nesse ponto é perceber que Steve Jobs enxergou
um (pseudo) padrão onde só haviam números aleatórios. Fazemos isso
muitas vezes na nossa vida. O mercado de ações está repleto desses
exemplos.
Essa duas histórias ilustram bem o cuidado que devemos ter com nossas
intuições e nossa eterna busca por padrões estabelecidos. Devemos
basear nossas decisões em aspectos racionais isentos dessas
influências. Pelos menos na Física!
Nenhum comentário:
Postar um comentário